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terça-feira, 10 de novembro de 2009

A rua como palco: o trabalho, a moradia, a arte da vida

A rua não é apenas um espaço ladeado por residências e locais de trabalho. A rua é residência, é trabalho, e também é lazer, é arte. Por duas vezes, observei falho o Dicionário Aurélio. A primeira quando li o conceito de lixo (mesmo após as conferências mundiais do meio ambiente, e acordos internacionais onde o Brasil é signatário, o dicionário foi capaz de enunciar mudanças coerentes); a segunda tem relação direta com esta pesquisa. A equipe do Mosaicos de Rua percebeu que o conceito, que é uma função metalingüística, para o termo “rua” estava incompleto sob a perspectiva do lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda. Essa percepção se deu primeiro, quando fomos as ruas antes de buscar o conceito no dicionário, ou em alguma obra científica. A rua, portanto, nos ensinou que ela é muito mais ampla, e que, nossa abordagem deveria estar centrada nas personagens que a compõe.



Surgia aí, o Mosaicos de Rua propriamente dito. Antes disso, era o blog apenas uma idéia solta no ar. Foi preciso senti-la, pensá-la, observa-la, interpreta-la. E da boca de quem entrevistamos (re)inventamos o conceito de rua.

A primeira idéia que temos em vista é que a rua é um caminho, uma estrada, uma viela, um trecho por onde se passa. Depois migramos passamos a idéia de que essa rua é ladeada por casas onde residimos, e também pelo local de nosso trabalho; o lazer também se abeira da estrada nessa perspectiva. Há um terceiro momento, quando percebemos que a rua não é estática, mas que ela toma outra proposição. A rua é randômica, é mutável, é repleta de seres mutantes, que nela moram, trabalham, expõem sua arte, e se adaptam as condições que a rua apresenta. Mas, o que parece ululante para muita gente, passa despercebido aos de quem mesmo utilizando a rua todos os dias, não percebe esse cenário magnífico e de oportunidades. Mas, a rua é também o espaço das contradições, das arbitrariedades, das mazelas, das querelas.


Historicamente é a transição do Feudalismo para o Capitalismo que nos dá a noção da mudança o paradigma da rua, e de seu conceito não estático – muito embora existam sociedades que preservam a rua como o conceito apresentado pelo dicionário: (…)tudo que não seja casa de residência e local de trabalho(…)”. O importante notar é que na transição histórica apontada, temos o deslocamento das caravanas de todas as partes do Oriente e do Ocidente para locais que se transformariam em grandes centros comerciais, ao redor dos burgos (castelos), a feira acaba auxiliando a modificar o conceito da rua. Teremos aí, o nascimento da rua como lugar de trabalho, de exposição da arte, de estímulo ao consumo, e também de violência e miséria. Quando aceitamos o conceito do lexicógrafo estamos, automaticamente, excluindo quem vive nas ruas.


A rua é composta por diversas personagens, e estas reunidas formam um mosaico. A palavra Mosaico tem duas origens, de acordo com o lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda: uma no grego mosaikós, que tem relação com o legislador bíblico Moisés; e na língua italiana, e significa o que segue:


1. Pavimento de ladrilhos variegados. 2. Embutido de pequenas pedras, ou de outras peças de cores, que pela sua disposição aparentam desenho. 3. Fig. Qualquer trabalho intelectual ou manual composto de várias partes distintas ou separadas. 4. Encad. Trabalho em que recortes de couro, de diferentes cores, são embutidos ou superpostos, formando compartimentos ou ornatos na pele que cobre um livro. 5. Fitopatol. Moléstia das plantas, causada por vírus, e que produz, nas folhas, áreas pálidas que contrastam com as áreas verdes e normais.


Serão sustentados os itens 1,2, e 3 do conceito acima posto por se encaixar no tema proposto.


Nossas personagens são moradores e trabalhadores de rua. Não cabe ao jornalista tecer teses, mas se basear em fontes, orais e escritas, e aplacar a curiosidade do seu público alvo. Ocorre que, para nossa equipe houve a intenção primeira de corporificar a voz das pessoas. Esse processo de corporificação significa, antes de tudo, de tomar uma difícil decisão: invadir a privacidade das pessoas. Por mais que os moradores de rua tenham afirmado que a nossa presença era de bom grado, há algo a se sustentar: colher relatos; estar onde a fonte está e fazê-la falar, se manifestar, se expor, significa uma forma de constrangimento. Quem está na rua, apesar de estar num espaço público, busca o anonimato.


Nossa sociedade, talvez, tenha adquirido o hábito de enxergar um trabalhador que exerça sua função ou atividade, como mera peça da grande engrenagem do sistema de valores e de poder o qual estamos imersos e ao mesmo tempo, subjugados. E aí nos deparamos com o primeiro problema: a jaula de aço não é o ônibus, a fábrica, a sala de aula, o escritório; a jaula de aço é o sistema em si, que estupidamente agredimos, quando muito o aceitamos descaradamente.


O relato de um engraxate é tão importante quanto o de um carteiro, pipoqueiro, artesão, morador de rua, e artista plástico. Cada fala é um universo, um livro aberto que se descortina. O dia tem suas angústias da mesma forma que a noite não consegue esconder suas agruras.


A noite de Florianópolis exibe prostitutas e travestis (profissionais do sexo); na vitrina do grande centro urbano, os batedores de carteira, de aparelhos de celular, e de dinheiro, não poupam nada e ninguém; os mendigos que gradativamente, tem sumido, desaparecido entremeados as políticas de (in)tolerância zero. Jovens que buscam os prazeres do sexo fácil, o caminho dos entorpecentes, a vida mundana como regra. O Mosaicos de Rua pode testar nossos limites; jornalista não pode ter nojo de gente, vergonha do ridículo, e arrogância, mas deve ter responsabilidade e ética.


A rua é o palco das arbitrariedades, do trabalho, da moradia, e da arte. A rua é esperança, mas também a boca do lixo. É o palco da vida.

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