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terça-feira, 10 de novembro de 2009

A rua com ladrilhos coloridos: um mosaico

“Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Só pra ver
Só pra ver meu bem passar”
(cantigas populares)



Ousadia talvez defina o blog Mosaicos de Rua. Havia a meta, mas quando o iniciamos não se imaginou para onde iríamos. As intempéries do tempo; sentimentos diversos; um corre-corre contra o relógio; um disse-me-disse num falar arrastado, e um erre puxado; histórias e momentos, percepções tão distintas em olhares e esquinas. Ser jornalista é arriscar? Arriscamos empregos; o conforto; a facilidade; a veracidade da informação; a própria pele. Contra a gente, o prazo. Qual ampulheta que anuncia a foice da morte, num banco de praça, em esquinas sem nomes.

Em agosto escrevi a crônica “Dias gelados em Santa Catarina”. Ela inspirou a criação do “Mosaicos de Rua”. Mas, não foi o único motivo; houve entre nós sincronia. A Karlinha queria entrevistar o homem-estátua. E onde ele estava? Nas ruas de Florianópolis. A rua foi escola, e nosso olhar sobre a rua pode reinventá-la. Juntos, novamente, em um trabalho acadêmico estávamos eu, Ariana, Karla, e Fabio.

Um dos livros que mais marcaram minha jornada foi “Les Miserables” ou “Os Miseráveis”, de Victor-Marie Hugo. Jean Valjean (Madeleine), Javert, Fantine, Marius, Cosette, o pequeno Gavroche, Enjolras, Jean Prouvaire, Combeferre, Joly, Bahorel, Bossuet, Fauchelevent, Thénardier, essas personagens nunca saíram de minha alma. Ao andar pelas ruas de Florianópolis eu os enxergo no vagabundo que respira a graça gratuita das nuvens; no capitalista altruísta que se esconde por detrás da capa de um meliante; na prostituta que troca seu corpo por um prato de comida; no casal de namorados que vivem apenas seu instante; na criança de rua que espera uma estrela no lugar da fome; na lealdade permeada de utopia, em amigos que lutam juntos mesmo tendo a morte por desfecho; na face do mal que cobra caro sua mão podre estendida. Lá está Valjean portando um candelabro furtado e sua alma pesada perseguido pela falsa noção de segurança que muitos acreditam estar contida na lei, na ordem, e num progresso medíocre de ferro e cimento.

Florianópolis, desde sua fundação bandeirante, é uma capital com vocação cosmopolita. Se o Êxodo Rural existe, e eu não duvido, ele dá às mãos a cidade. Ele a pede em casamento, mas os pais da cidade são conservadores demais e tentam sumir com o noivo. Eles não casam, mas geram filhos antes bastardos – hoje legalmente reconhecidos. Ele a traí com as políticas de (in)tolerância zero, e com as facilidades da jaula de ferro. E seus filhos, frutos das ingerências todas, no coração da cidade, têm a praça, o largo, a rua como chão fecundo e maternidade. Hoje os vemos passeando no jardim da maturidade, observando sem compreender, velhos desdentados, poetas amordaçados, gente alienada. E porque a inocência se esconde na Miséria, na Pobreza, na Indiferença, na Prostituição, na Violência.

O mais difícil é ter esperança na escuridão; saber que a rua de ladrilhos coloridos está em algum lugar de nossa infância esquecida; na lembrança. Conforta saber que existem lutadores. Uns que na arte vencem o medo; outros que no alforje do trabalho esquecem as dores dos dias; e outros ainda que vivem a ilusão de liberdade nos gradis de uma sociedade de exclusão.

Os dias de rua; as experiências nas comunidades; as belas mentiras que se tornaram verdades; a utopia em minha alma; a eterna canção dentro da noite; e os gritos do porão, dos silenciados, de um tempo de repressão; as nossas personagens, nossos mosaicos de ladrilhos coloridos; fez-me ver, julgar e agir, e lembrar do pensamento abaixo:

"Enquanto existir, fundamentada nas leis e nos costumes, uma condenação social que crie artificialmente, em plena civilização, verdadeiros infernos, ampliando com uma fatalidade humana o destino, que é divino; enquanto os três problemas deste século, a degradação do homem no proletariado, o enfraquecimento da mulher pela fome e a atrofia da criança pela escuridão da noite, não forem resolvidos; enquanto, em certas regiões, a asfixia social for possível; em outros termos, e sob um ponto de vista ainda mais abrangente, enquanto houver sobre a terra ignorância e miséria, os livros da natureza deste poderão não ser inúteis. (Hauteville-House, 1.º de janeiro de 1862 - Os Miseráveis - Victor Hugo )

2 comentários:

Anônimo disse...

muito proveitosa a sua observação,sobre a vida de rua,vindo de você,podemos esperar sempre algo cultural,com enbasamento daquilo que vain escrever,parabéns mais uma vez o blog ta um luxo só,a valorizaçao dos artistas de rua precisa ganhar espaço,continuem a divulgaçao,valeu,um abraço até a pròxima,luciana.

Anônimo disse...

o comentàrio acima è de luciana gava

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